Tenho uma amiga que é médica, e de vez em quando ela comenta comigo que brasileiro gosta de cirurgia. Sejam elas plásticas, obstétricas, bariátricas, etc. Eu noto uma grande banalização da faca, digo, bisturi. O caso está tão sério que certa feita fui aconselhada a fazer uma cirurgia por causa de uma unha encravada! Incontáveis vezes vi mulheres saudáveis optarem por um parto cesáreo ao invés do natural. Porém, não é disso que quero falar, quero chamar atenção para a cirurgia bariátrica, popularmente conhecida como "redução de estômago".
Vamos analisar alguns números. O Brasil está em 19° lugar em obesidade masculina e em 15° na feminina. Nauru está em primeiro lugar, porém como é uma pequena ilha, o número é insignificante em relação aos Estados Unidos, por exemplo, que está em segundo lugar, e como tal, ele lidera o rank das bariátricas. Nosso país, que encontra-se no 17° lugar do rank (tirando a média entre a obesidade de ambos os sexos) encontra-se, interessantemente, na 2ª posição do rank das bariátricas.
Eu sou primordialmente contra intervenções cirúrgicas quando elas não são necessárias, há as exceções, mas não vim falar delas. Essa banalização que falei acima é incentivada pela mídia, pelas experiências bem sucedidas, pela vontade de se livrar da obesidade rapidamente e, principalmente, pela insatisfação com o próprio corpo. Conheço várias pessoas que fizeram a bariátrica. E todas elas falam que não foi como imaginavam, e uma delas está agora mais obesa que antes da cirurgia.
Não quero fazer terror, muito menos falar que a cirurgia não funciona. Ela funciona sim, mas como toda intervenção cirúrgica você é cortado e costurado. O objetivo de uma intervenção seria tratar incisivamente um mal que, caso não seja tratado com a maior brevidade - e gravidade - possível, poderá causar um mal maior. Óbvio isso, porém as pessoas não param para refletir sobre o tema. É um processo delicado, você fica sensível, sofre meses com as reações advindas da cirurgia, e ainda corre os riscos naturais de toda cirurgia, que é de alguma coisa dar errado, afinal são seres humanos passíveis de erros que estão com a faca na mão.
Conheço um rapaz que estava gordo e sedentário. Trinta e quatro anos, com gota e hipertensão arterial, ao invés de mudar os hábitos preferiu apenas fazer a bariátrica. Hoje, cinco anos depois está mais gordo que antes da cirurgia exatamente porque não mudou seus hábitos. Conheço outro rapaz que estava gordo e sedentário, vinte e cinco anos, também hipertenso, resolveu que preferia engordar mais quinze quilos e fazer a bariátrica ao invés de mudar os hábitos. No caso dele algo deu errado e ele passou semanas sofrendo não apenas os sintomas de recuperação da bariátrica, mas enjoos contantes inclusive quando bebia água. Um mês depois afirmava que se soubesse que seria assim não teria feito.
Há os casos de sucesso, que são muitos e significativos, mas nada justifica você pesar cem quilos e engordar dez para fazer essa cirurgia. É para essa banalização, essa fetichização, de uma cirurgia grave que quero chamar atenção. Fazer assim não só é estar brincando com sua saúde em vários níveis, é estar se enganando, o que para mim é pior. Se você não se esforça para mudar os hábitos antes da bariátrica não vai ser ela que te manterá magro. Fazer dieta é chato, ninguém disse que não, mas substituir a dieta pela bariátrica é apenas forçar o corpo a um processo antinatural que te deixará pior, tanto física quanto psicologicamente, no final.
Muitas pessoas que fazem essa cirurgia buscam não o emagrecimento por causa da saúde, mas a beleza, o ser aceito socialmente, ser apreciado. São desejos genuínos, e não desclassificarei as pessoas que querem ser belas, não há mal no belo, o mal só há no que fazem com esse desejo, tentando impor um único padrão de beleza sobre os outros e tentando nos fazer acreditar que só sendo bonito conseguiremos alcançar nossos objetivos. Isso é mentira. E o que acho pior é tentar impor um padrão de saúde mentiroso sobre os outros. Não só é saudável quem é magro, como nem todo gordo é doente.
O ideal para quem quer perder peso é procurar um profissional em psicologia e um em nutrição, tratar sua mente em conjunto com seu corpo. Vai demorar mais, mas os resultados serão bem mais duradores que fazer uma cirurgia sem estar psicologicamente preparado para manter o peso depois dela. E acima de tudo, se você quer perder peso, que seja pela sua saúde, não pela sua beleza. Incentivo que você descarte a necessidade de ser considerado belo de sua vida. Quem sabe assim você será mais feliz?
Por Rebeca
Concorda?
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