Os triângulos illuminati se multiplicaram e agora se acomodam ao redor do globo.

1 de setembro de 2012

Quem decide a minha sexualidade?

Esse post foi escrito pela Kamila, do Minoria é a Mãe.              ← bandeira do orgulho bi →
Às vezes acontece de uma pessoa me informar que eu não existo. Acho curioso, porque eu tenho uma boa noção de que existo, sim. Mas a pessoa tem certeza que não e então eu pergunto os motivos. Ela explica que é porque só existem dois lados - ela mesma está apenas em um deles - e, portanto, não é possível que eu esteja em ambos ao mesmo tempo. A conclusão dela é que estou fingindo ou apenas confusa.
Eu estou falando sobre bissexualidade, é claro. Em uma sociedade tão apegada aos conceitos binários, ser bissexual é, quando não errado, simplesmente invisível. Me identifico como bi porque sinto atração por mulheres e homens, mas pra muita gente isso significa estar encima do muro, estar representando um papel para me disfarçar melhor entre os heterossexuais, estar apenas passando por uma fase, entre outras coisas.
Não dá pra negar que rótulos servem pra muita coisa, especialmente quando se fala em representação, mas eles também servem pra segregar. Tanto que uma questão tão pessoal quanto a sexualidade de uma pessoa tantas vezes acabe saindo das mãos dela para que outras julguem se o termo com o qual ela se identifica está certo ou errado. Isso acontece com a bissexualidade porque ficou arraigado na cabeça das pessoas que só é possível ser homo ou heterossexual - quando na verdade esses são apenas dois exemplos de um espectro enorme. O próprio conceito de bissexualidade também se vale da divisão binária, por se referir a dois gêneros, na clássica divisão entre homem e mulher, masculino e feminino.
Nasceram assim os mitos sobre bissexualidade, que não são poucos. Desde que comecei a entender a minha sexualidade e prestar mais atenção no assunto, não foram poucas as vezes em que li ou ouvi que bissexuais não conseguiam ser fiéis, porque queriam estar sempre com uma mulher e um homem ao mesmo tempo. Veja você que essa suposição esbarra também na ideia de que é errado ter dois parceiros - havendo consenso, que mal tem? E aí a ideia de uma mesma pessoa ter dois parceiros esbarra na ideia de que isso é promiscuidade, e portanto é errado. Mas, opa, a promiscuidade esbarra no fato de que ela só é essencialmente ruim se praticada por uma mulher. Daí voltamos ao começo da história e, finalmente, chegamos ao ponto que se refere à bissexualidade, que é a ideia de que existem padrões fixos para se determinar a sexualidade de uma pessoa. Por exemplo, eu só teria o direito de realmente ser bissexual se sentisse atração de forma igual por ambos os gêneros - e, bem, não é isso o que geralmente acontece. Eu mesma sinto atrações diferentes - será que não sou bissexual? Será que sou lésbica com exceções? Será que tenho fases? Será que existe um outro termo pra mim? Olha, deve até existir mesmo. Mas o fato é que eu não tenho o direito de ficar dando na sexualidade alheia.
Bissexuais, assim como todo o espectro queer, sempre existiram. A visibilidade é que mudou com o tempo. De repente o termo se tornou conhecido, entrou na sigla, tem seus representantes. Mas mesmo assim não foi o suficiente, porque se acha que, por algum motivo que eu desconheço, bissexuais já têm visibilidade o suficiente. Quantos personagens bissexuais você já viu representados na mídia? E na literatura? Não são muitos, não é? Eu não preciso de mais do que os dedos de uma mão pra contar quantos me lembro de ter visto. E até mesmo quando representados, alguns esbarram no problema da caracterização da bissexualidade como algo nada sério ou verdadeiro. Até mesmo em mídia voltada para o público queer existe uma lacuna enorme de personagens bi e trans.
Conheço apenas dois personagens homens que sejam bi: Captain Jack Harkness, das séries Doctor Who e Torchwood, e John Constantine, da HQ Hellblazer. Na verdade, acho que o Jack era pan. A representação de homens bi é tão assustadoramente menor assim porque também existe o mito de que eles não existem. Ou é gay ou é hetero. Ou gosta de mulher ou não gosta. Gente? É mais “aceitável” que uma mulher seja bi porque a sexualidade feminina não é tão levada a sério e é vista em função do homem - mulher bi pode porque é uma fase, porque não é sério, porque é só pra homem (hetero!) ver.
O que eu sei é que existimos e que lutamos pela mesma causa. O preconceito não existe só do lado de fora, tá aqui do lado de dentro da nossa porta também - e, infelizmente, esse é um dos pseudo-argumentos de muita gente para desacreditar a causa. Não existe movimento que seja completamente único, que não tenha vertentes com focos diferentes, que não tenha membros que discordam entre si, que não tenha um mínimo de diálogo. E o que eu também sei é que, olha só que maravilha, apenas eu tenho como dizer (ou não dizer!) qual é a minha sexualidade.

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