Qual seria a sua reação se alguém te dissesse que vivemos em
uma cultura de estupro? Eu já fiz essa pergunta algumas vezes e a resposta
quase sempre é simplesmente a descrença. Afinal, o estupro é um crime hediondo,
certo? Nós ensinamos às nossas crianças que isso é errado. Nós ficamos chocados
e revoltados diante de notícias sobre estupradores, certo?
Nem tanto. A palavra que vem acompanhada de “estupro” é
“culpa”. Mas, por incrível que pareça, nem sempre ela se refere ao estuprador.
Somos ensinados desde muito cedo a culpar a vítima - é isso que faz com que,
diante de uma acusação de abuso sexual, tantas vezes a primeira pergunta feita
à vítima seja “mas o que você estava vestindo?”. O significado de culpa também
acompanha a mulher há muito tempo; não foi a mulher que, segundo o Velho
Testamento, tão importante na formação do pensamento ocidental, deixou o pecado
entrar no mundo?
A "culpabilização" da vítima (victim blaming, em
inglês) não é um fenômeno recente e nem é restrito a poucos grupos - ele não
aparece apenas em casos extremos. O buraco é bem mais embaixo. São muito
populares na internet as imagens que fazem comparações entre “vadias e mulheres
de respeito”. Geralmente o lado da imagem das vadias é uma foto de mulheres
dançando em uma festa, usando roupas curtas ou dando a entender que ficaram com
vários homens. O lado reservado às boas mulheres mostra uma esposa cuidando do
marido doente na cama ou cozinhando, entre outras coisas.
Essa antiga divisão entre putas e santas está relacionada à “culpabilização”
da vítima de abuso sexual e estupro. Infelizmente não é difícil ver quem tente
atenuar a culpa do estuprador ao dizer que a vítima, se estava vestindo uma
roupa curta, estava pedindo pra ser estuprada - como se mulheres vestidas dos
pés a cabeça não o fossem. Que se ela estava andando na rua à noite estava
pedindo por isso - sem se lembrar, talvez, que a primeira preocupação de um
homem que anda sozinho na rua à noite dificilmente será o estupro; ele não foi
ensinado a se sentir ameaçado por isso, já que a enorme maioria das vítimas do
estupro são mulheres. Que se ela bebeu demais em uma festa e alguém se
aproveitou da sua incapacidade de reagir está, ainda por cima, duplamente
errada - porque uma mulher direita não bebe tanto assim e porque, oras, ela
estava dando oportunidade para um estupro!
Não é incomum ficar desconfiado quando alguém falar em
cultura de estupro porque estamos tão imersos nela que já não conseguimos ver o
quadro completo. Mas ela está em todo lugar, quando a dúvida recai em cima da
vítima e não do estuprador; quando se esquece de que a grande maioria dos
estupros acontece dentro de casa e por pessoas conhecidas e não somente em
becos escuros, tarde da noite, quando a mulher está usando uma minissaia;
quando se acha perfeitamente normal que o castigo do estuprador na cadeia seja
o próprio estupro; quando tão poucos homens têm voz para dizer que também foram
vítimas; quando se usa de desculpas biológicas para justificar o crime, como se
uma suposta libido maior do homem o tornasse incontrolável ao ser provocado;
quando ensinamos nossas meninas a não ser estupradas, e não os meninos a não
estuprar; quando a sexualidade da mulher é tão vista em função do homem que um
“não” é uma negação do direito dele de ter aquela mulher; quando se esquece de
que o corpo de uma pessoa não pertence a ninguém além dela mesma e que maridos
também estupram esposas.
Eu poderia passar muito tempo listando mais exemplos, mas o
fato é que, infelizmente, vivemos nesse mundo, aprendendo que a
responsabilidade de não se deixar estuprar está em nossas mãos. Só me pergunto
até quando.

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