Os triângulos illuminati se multiplicaram e agora se acomodam ao redor do globo.

27 de junho de 2012

O que é a cultura de estupro

Qual seria a sua reação se alguém te dissesse que vivemos em uma cultura de estupro? Eu já fiz essa pergunta algumas vezes e a resposta quase sempre é simplesmente a descrença. Afinal, o estupro é um crime hediondo, certo? Nós ensinamos às nossas crianças que isso é errado. Nós ficamos chocados e revoltados diante de notícias sobre estupradores, certo? 
Nem tanto. A palavra que vem acompanhada de “estupro” é “culpa”. Mas, por incrível que pareça, nem sempre ela se refere ao estuprador. Somos ensinados desde muito cedo a culpar a vítima - é isso que faz com que, diante de uma acusação de abuso sexual, tantas vezes a primeira pergunta feita à vítima seja “mas o que você estava vestindo?”. O significado de culpa também acompanha a mulher há muito tempo; não foi a mulher que, segundo o Velho Testamento, tão importante na formação do pensamento ocidental, deixou o pecado entrar no mundo?
A "culpabilização" da vítima (victim blaming, em inglês) não é um fenômeno recente e nem é restrito a poucos grupos - ele não aparece apenas em casos extremos. O buraco é bem mais embaixo. São muito populares na internet as imagens que fazem comparações entre “vadias e mulheres de respeito”. Geralmente o lado da imagem das vadias é uma foto de mulheres dançando em uma festa, usando roupas curtas ou dando a entender que ficaram com vários homens. O lado reservado às boas mulheres mostra uma esposa cuidando do marido doente na cama ou cozinhando, entre outras coisas.
Essa antiga divisão entre putas e santas está relacionada à “culpabilização” da vítima de abuso sexual e estupro. Infelizmente não é difícil ver quem tente atenuar a culpa do estuprador ao dizer que a vítima, se estava vestindo uma roupa curta, estava pedindo pra ser estuprada - como se mulheres vestidas dos pés a cabeça não o fossem. Que se ela estava andando na rua à noite estava pedindo por isso - sem se lembrar, talvez, que a primeira preocupação de um homem que anda sozinho na rua à noite dificilmente será o estupro; ele não foi ensinado a se sentir ameaçado por isso, já que a enorme maioria das vítimas do estupro são mulheres. Que se ela bebeu demais em uma festa e alguém se aproveitou da sua incapacidade de reagir está, ainda por cima, duplamente errada - porque uma mulher direita não bebe tanto assim e porque, oras, ela estava dando oportunidade para um estupro!
Não é incomum ficar desconfiado quando alguém falar em cultura de estupro porque estamos tão imersos nela que já não conseguimos ver o quadro completo. Mas ela está em todo lugar, quando a dúvida recai em cima da vítima e não do estuprador; quando se esquece de que a grande maioria dos estupros acontece dentro de casa e por pessoas conhecidas e não somente em becos escuros, tarde da noite, quando a mulher está usando uma minissaia; quando se acha perfeitamente normal que o castigo do estuprador na cadeia seja o próprio estupro; quando tão poucos homens têm voz para dizer que também foram vítimas; quando se usa de desculpas biológicas para justificar o crime, como se uma suposta libido maior do homem o tornasse incontrolável ao ser provocado; quando ensinamos nossas meninas a não ser estupradas, e não os meninos a não estuprar; quando a sexualidade da mulher é tão vista em função do homem que um “não” é uma negação do direito dele de ter aquela mulher; quando se esquece de que o corpo de uma pessoa não pertence a ninguém além dela mesma e que maridos também estupram esposas.
Eu poderia passar muito tempo listando mais exemplos, mas o fato é que, infelizmente, vivemos nesse mundo, aprendendo que a responsabilidade de não se deixar estuprar está em nossas mãos. Só me pergunto até quando. 
Inspirado num texto publicado no blog "Minoria é a Mãe".

Nenhum comentário:

Postar um comentário